Nossa presença no mundo digital hoje é ininterrupta; mesmo quando acreditamos estar "offline", nossos dispositivos continuam gerando rastros e expandindo nossa existência virtual. Nesse cenário, a teórica Diana Taylor introduziu o conceito de data bodies (corpos de dados), que se refere à soma de todos os registros digitais, oficiais e extraoficiais, que existem sobre a nossa existência. Taylor alerta que esse "corpo eletrônico" tornou-se mais poderoso do que o próprio corpo de carne e osso, pois é com base nesses registros digitais que governos e empresas tomam decisões que afetam diretamente nossa vida, concedendo ou negando acesso a serviços como crédito, moradia, seguros de saúde e até mesmo a permissão para viajar e cruzar fronteiras nacionais.

Diante desse cenário, a governança de dados e a privacidade deixaram de ser apenas exigências jurídicas para se tornarem pilares cruciais para a sobrevivência e reputação das marcas modernas.

A Ilusão do Consentimento

A imensa maioria dos usuários participa ativamente da criação e manutenção de seus próprios corpos de dados por meio de buscas na internet, uso de aplicativos, geolocalização e redes sociais. No entanto, a forma como as corporações coletam essas informações baseia-se em uma ilusão de consentimento.

Para obter acesso imediato a um aplicativo ou serviço, as pessoas rotineiramente clicam no botão "Aceito os Termos e Condições" sem ler os longos textos legais. Um estudo de 2020 de Nicholas LePan calculou que um usuário precisaria gastar mais de 250 horas por ano apenas para ler os termos de serviço das 14 plataformas online mais populares do mercado. Como resultado direto dessa barreira de tempo, 97% das pessoas entre 18 e 34 anos aceitam as condições de privacidade sem lê-las.

Trata-se de um sistema em que a privacidade da experiência humana é extraída, computada por algoritmos preditivos e empacotada na forma de "produtos de previsão" vendidos para anunciantes interessados em saber e influenciar o que faremos no futuro, que chamamos da Nova Economia. O resultado disso é uma profunda assimetria de informação: uma relação de poder desigual em que o usuário fornece dados valiosos sem compreender a profundidade, o destino ou o valor financeiro do que está entregando.

O Despertar do Usuário e o Fim da Complacência

Embora as empresas tenham prosperado por anos explorando essa ignorância digital, o cenário atual demonstra sinais claros de mudança. Práticas como a "covigilância" (coveillance), o ato de monitorar os outros e ser monitorado constantemente por pares nas redes sociais, têm gerado exaustão mental e uma crescente preocupação com a reputação digital de longo prazo.

Além disso, o público tem se deparado com o impacto de decisões automatizadas baseadas em algoritmos preditivos que reafirma seus gostos mantendo você mais tempo dentro de suas plataformas, ao contrário se sugerisse diferente, perde a sua atenção. Com o aumento de vazamentos de dados e o uso de táticas de ofuscamento de dados pelos próprios usuários como forma de protesto, as marcas que continuarem operando sob a lógica da coleta obscura perderão mercado.

O Caminho da Solução: LGPD e a Certificação ISO 27701

Para combater a assimetria de informação e reconstruir a confiança, as empresas precisam adotar estruturas robustas de Governança de TI e Segurança da Informação. No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) estabeleceu as regras e sanções para o tratamento de dados pessoais. Contudo, para operacionalizar essa lei de forma prática, a melhor prática global aponta para a implementação da ISO 27701.

Sendo uma extensão da ISO 27001 (Segurança da Informação), a ISO 27701 estabelece um Sistema de Gestão de Informações de Privacidade (SGIP). Ela ajuda as organizações a:

  • Mapear o Fluxo de Dados: Identificar quais dados compõem o corpo de dados (data body) de seus clientes e colaboradores e como eles são processados e armazenados.
  • Garantir o Menor Privilégio: Implementar políticas rígidas onde o acesso a dados pessoais seja limitado apenas ao estritamente necessário para a execução do serviço.
  • Estabelecer Transparência Real: Traduzir termos de uso indecifráveis em comunicações claras e acessíveis, devolvendo ao usuário o controle sobre suas próprias informações.
  • Mitigar Riscos de Segurança: Alinhar as defesas cibernéticas com as diretrizes de análise de risco, realizando avaliações de impacto contínuas sobre a privacidade.

Privacidade como Ativo de Negócios

A conformidade com a LGPD e a certificação na ISO 27701 não devem ser vistas como meras obrigações burocráticas ou projetos temporários de TI. Elas representam um compromisso de governança de longo prazo.

Ao adotar esses padrões de privacidade, sua empresa elimina a assimetria de informação, protege os valiosos data bodies de seus clientes e se posiciona como uma marca transparente e preparada para liderar com integridade em um mercado cada vez mais consciente e vigilante.

 

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